#32 Opinião - Shame





Drama - 16 de Março de 2012
 
Steve McQueen (Hunger)
Roteiro: Abi Morgan e Steve McQueen





"Muito pode ser dito com um olhar."






Shame é um filme que apresenta um momento intenso da vida do personagem Brandon (Michael Fassbender), um morador de nova-iorque, descendente de irlandeses que tem uma obsessão não comum por sexo. Tudo isso sem prólogo ou epílogo.

Cenas eróticas, diálogos restritos e sequencias longas dão a cara a esse filme incomum que concorreu em algumas premiações, mas ganhou poucas relevantes, talvez pelas suas cenas polêmicas, ainda que não seja um filme narrativo dos mais radicais no que diz respeito a moralidade das imagens.

Sem medo de retaliações Shame nos mostra, numa cena sem falas, grande parte do complexo psicológico do personagem principal, quando num metrô ele assusta uma moça que de início aceitou e retribuiu sua cantada. Ali temos um personagem acostumado com sua vida sexual incessante (prostitutas visitando sua residência, pornografia no escritório de trabalho e nos armários de seu apartamento de Janelas bastante Indiscretas e transparentes) que se verá numa complicação quando sua irmã mais nova aparece para "visitá-lo" e acaba ficando por mais tempo que o esperado.

Cenas picantes de longa duração mantém o público menos acostumado bastante à par do título, ou apenas incomoda o mesmo com uma longa corrida de cooper sem cortes e um encontro constrangedor também sem pausas na filmagem. Esses incômodos nos colocam na pele de Brandon que nesses momentos procurava mudar de vida e conquistar uma mulher pela conversa e não por olhares sensuais, dinheiro ou apenas pelo desejo.

Quando nada dá certo e sua paciência se esgota as coisas vão de mal a pior devido às condições psicológicas desses dois irmãos que sofreram algum mal profundo em seu passado que o filme não procura explorar, mas a chegada de Sissy (Carey Mulligan) não é só uma intrusão na vida de Brandon. Ela é quem trás à tona o sentimento de culpa, a vergonha, que ele possui de seu vício sexual.

Assim como a própria narrativa pontual corajosa do longa, a garota com quem Brandon testa um encontro casual, afirma que ao contrário dele (que afirmou que se pudesse ser outra pessoa teria sido um cantor que vivera nos anos oitenta), preferia ser ela mesma nesse mesmo momento. Desse modo o filme consegue retratar os dois modos como o protagonista olha para a própria compulsão, esse parece ser o interesse do filme, e não nos apresentar as motivações para as atitudes dele ou da sua irmã.

Se as explicações para os modos de vida dos personagens nos fossem entregues à maneira como somos acostumados (tudo mastigado para satisfazer nossa necessidade de entendimento detalhado) o longa perderia muito de seu valor.

Se essas explicações fossem apresentadas num formato inovador ou imaginativo talvez o longa continuasse bom e fosse até mais interessante. Mas imaginar como um filme poderia ser melhor, sendo ele, pelo que é, suficientemente bom, parece um tanto arrogante. O longa inglês consegue ter qualidade mesmo se afastando do roteiro tradicional comercial e consegue comunicar-se com o olhar, tão bem, ou melhor que o americano Drive, que segue a mesma estética textual silenciosa.

Merece os aplausos por apresentar, por meio de altos e baixos, esse trecho de vida, no qual a dificuldade em relacionar vícios, vida familiar e social é retratada sem ser piegas e passando longe do moralismo.

*Estreou em Março de 2012 no Brasil

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